Eu costumava escrever nos meus diários que eu amava a minha mãe, todo dia. Era como se eu quisesse afirmar para mim mesma que eu a amava. E não só isso, eu dizia coisas do tipo "ela é perfeita", "ela é a melhor mãe do mundo". Eu escrevia isso numa época onde a gente brigava muito, numa época que minha mãe era muito displicente, que minha mãe não era tão presente. Eu era adolescente e eu vivi coisas que talvez eu não tivesse vivido se eu tivesse um ambiente aberto a conversas. Não que ela não dissesse abertamente "filha, você pode conversar comigo". Ela disse isso, muitas vezes, inclusive, mas não é como se a porta estivesse aberta, sabe? Eu não sentia que ela estivesse de fato interessada na minha vida. No entanto, ela estava sempre interessada na sua própria vida, eu lembro que eu fiz teatro porque o sonho da minha mãe era ter feito teatro, mas a mãe dela falava que teatro era coisa de puta. E lá se foi, eu fiz teatro. Eu gostava do teatro. Eu gostava muito do teatro, mas não foi uma ideia minha. Eu fiz judô porque foi o esporte que o meu irmão fazia. Eu fiz natação porque também foi o esporte que o meu irmão fazia. Nós não podíamos ficar sem esporte nunca, sem alguma ocupação durante o dia, porque o ambiente de casa era muito hostil, e a gente reclamava muito daquela casa, e assim minha mãe preferiu nos afastar de casa ao melhorá-la pra gente. E esse princípio foi o mesmo usado com tudo. Era como se os valores naquela família fossem todos invertidos. Nós não tínhamos uma cama boa, um armário de qualidade ou um canto nosso de privacidade, mas quando questionávamos a dinâmica familiar, quando nos víamos em roupantes de raiva ou em meio a um impasse e um problema de relacionamento, ela prontamente nos amenizava com presentes: jogos, brinquedos, qualquer coisa supérflua que a gente quisesse muito. Imagina que ela ia mudar alguma coisa por nós! Não, né? Nós que tínhamos que nos adaptar, e recebíamos presentes para ficarmos quietos. Eu não acho que meu pai mereça tanto espaço aqui, porque ele foi omisso na mesma medida que a minha lembrança de infância - mal - se lembra dele, eu acho que ele merece a culpa de um cúmplice.
Lembro que carinhosamente minha mãe me chamava de "companheirinha da mamãe". Era um misto de sensações. Eu queria agradá-la, é óbvio. Mas eu era arrastada para todo e qualquer tipo de lugares: igrejas, centros religiosos, cultos, massagistas, casas de amigas, reuniões de colegas, festas. Uma frase corriqueira da minha mãe era o "não precisa querer, apenas vá". E assim eu fui obrigada a fazer tudo o que ela quisesse. Eu sorria, eu me comportava e era exposta a todos com orgulho, como se eu fosse um objeto manipulável - e olha que eu era, muito manipulável. A chantagem emocional sempre foi a arma mais utilizada pela minha mãe. Isso construiu em mim uma sensação de que eu era responsável pelo sentimento alheio, o que me deixava extremamente culpada, e assim eu passei não só a ter medo de usar a palavra "não" como desaprendi a usá-la, e muitas vezes me violava, violava minhas próprias vontades pelos outros, nas coisas mais triviais. Eu passei a me anular, e me anulei tanto que aos vinte e seis anos de idade eu me vi na maior crise de toda a minha vida: eu não sabia o que eu queria fazer, eu não sabia o que eu gostava de fazer, eu não conseguia tomar decisões sozinha. Foi quando comecei a ter muitas crises de ansiedade. Na verdade eu já conhecia essas crises, as mesmas que me deixavam hiperventilando no banheiro do escritório do meu primeiro estágio quando eu tentava focar no presente "você tem vinte e um anos, está no terceiro ano de psicologia, hoje é terça-feira, são dez horas... respira... respira... calma". Essa era eu tentando me acalmar com uma dívida de mais de oitenta mil reais que minha mãe tinha colocado no meu nome quando me persuadiu a assinar os papéis daquela loja que ela queria tanto ter. E ela usou a culpa sem escrúpulos porque ela ajudava a pagar a minha faculdade, porque nunca me faltou nada, porque ela sempre me encheu com aquelas coisas supérfluas. Como eu poderia ser egoísta e ingrata ao ponto de não emprestar o meu nome para a minha própria mãe que estava com o nome sujo? Como eu poderia não confiar nela? Não sei como passei por aquele momento. Na verdade eu sei sim: eu corria oito quilômetros por dia, e isso estragou o meu joelho. A minha gastrite virou úlcera. Desenvolvi bruxismo, enxaquecas terríveis, bexiga hiperativa e disidrose. Todas essas doenças sintomáticas vieram por conta do estresse. Mas passou. Eu consegui pagar as dívidas, sem a ajuda da minha mãe, inclusive.
A história deveria acabar aqui, certo? Eu saí de casa, brigamos e nunca mais nos falamos. O que ela fez foi imperdoável. Mas eu a perdoei. E de uma forma bem bizarra, eu nem passei pela raiva. Porque sentir ódio pela minha mãe seria mais uma fonte de culpa. Sim. Eu sofro de culpa crônica. E isso é esmagador, limitador e muito angustiante. Eu realmente vivi durante alguns anos nessa fantasia de que eu era um ser humano bastante evoluído e que conseguia separar o problema da minha mãe com dívidas e todas as suas bagunças com nossa relação de mãe e filha. Afinal de contas, ela não fez por mal, não é mesmo? Ela é doente. Ela errou. As pessoas erram. Eu me contei uma porção de histórias. Minha mãe fez uns três ou quatro erros como este ao longo da sua vida, esse não foi o primeiro nem o último. Percebe, esse é o problema de uma mãe narcisista, ela acha que eu sou uma extensão dela, e ela pode me usar como um pino em um tabuleiro. Se apropriando dos meus recursos e não se importando com as consequências negativas advindas dessas ações. Falta empatia, a compulsão por si é tão grande que não existe o outro nessa equação. E ao contrário do que pensa a maioria das pessoas, o narcisista não se ama loucamente, ele tem uma auto estima bem cagada e se auto-vangloria em função disso. E como em qualquer relacionamento abusivo, existe uma co-dependência emocional, a mãe precisa ser vista como um ser bom, perfeito, e se coloca como vítima nessa relação, enquanto a filha se vê com medo do abandono, da rejeição, do conflito e da tão supracitada culpa.
Minhas crises de ansiedade voltaram de maneira generalizada, e com elas uma depressão debilitante. Eu busquei ajuda psiquiátrica e psicológica. A psicoterapia foi fundamental, eu fiz uma autoanálise muito profunda e ainda assim, demorei mais dois anos para perceber que tinha uma relação tóxica com minha mãe. Eu demorei quase três décadas da minha vida para descobrir que alguma coisa estava muito errada. Foi difícil, porque o mais confuso disso tudo é que a minha mãe sempre foi muito carinhosa comigo. Ela sempre foi aquela pessoa carismática e simpática, que as pessoas gostavam muito. Seus ataques eram passivo-agressivos. Era de um jeito delicado que ela dizia que eu tinha engordado, ou que um corte de cabelo tinha ficado muito feio em mim, ou que ela sempre foi a melhor da classe e eu nunca saberia como era isso - eu já reprovei um ano na escola. Era de uma forma bem sutil que ela dava a entender que a saúde do meu pai era de minha responsabilidade, e que se as finanças deles não iam bem - por alguma irresponsabilidade qualquer - eu tinha alguma obrigação de socorrer. Não era de maneira escancarada que ela dava palpites em como eu deveria organizar a minha casa quando ela fazia visitas, ou se eu deveria convidar algum parente para algum evento, ou como eu fiz fulano se sentir mal porque expus minha opinião. Ela tenta me controlar pela culpa de todas as formas e é um exercício diário demarcar limites nessa relação sem que eu saia muito machucada. Inclusive eu estou me sentindo muito culpada de estar escrevendo este texto agora porque hoje tivemos uma conversa razoável por mensagem de texto. Enfim, lembra dos meus diários? Pois é, eu não podia não amá-la, sabe? A culpa me comeria viva por dentro, aquela mesma culpa que eu fugia tanto, ela me comeria órgão a órgão, até não sobrar nada, e esse vazio me transformaria em um ser terrível. Que tipo de sujeito não gosta da própria mãe? Numa sociedade onde a mãe é um ser sagrado, algumas pessoas simplesmente se esquecem de que mães são apenas mulheres que tiveram filhos.
Lembro que carinhosamente minha mãe me chamava de "companheirinha da mamãe". Era um misto de sensações. Eu queria agradá-la, é óbvio. Mas eu era arrastada para todo e qualquer tipo de lugares: igrejas, centros religiosos, cultos, massagistas, casas de amigas, reuniões de colegas, festas. Uma frase corriqueira da minha mãe era o "não precisa querer, apenas vá". E assim eu fui obrigada a fazer tudo o que ela quisesse. Eu sorria, eu me comportava e era exposta a todos com orgulho, como se eu fosse um objeto manipulável - e olha que eu era, muito manipulável. A chantagem emocional sempre foi a arma mais utilizada pela minha mãe. Isso construiu em mim uma sensação de que eu era responsável pelo sentimento alheio, o que me deixava extremamente culpada, e assim eu passei não só a ter medo de usar a palavra "não" como desaprendi a usá-la, e muitas vezes me violava, violava minhas próprias vontades pelos outros, nas coisas mais triviais. Eu passei a me anular, e me anulei tanto que aos vinte e seis anos de idade eu me vi na maior crise de toda a minha vida: eu não sabia o que eu queria fazer, eu não sabia o que eu gostava de fazer, eu não conseguia tomar decisões sozinha. Foi quando comecei a ter muitas crises de ansiedade. Na verdade eu já conhecia essas crises, as mesmas que me deixavam hiperventilando no banheiro do escritório do meu primeiro estágio quando eu tentava focar no presente "você tem vinte e um anos, está no terceiro ano de psicologia, hoje é terça-feira, são dez horas... respira... respira... calma". Essa era eu tentando me acalmar com uma dívida de mais de oitenta mil reais que minha mãe tinha colocado no meu nome quando me persuadiu a assinar os papéis daquela loja que ela queria tanto ter. E ela usou a culpa sem escrúpulos porque ela ajudava a pagar a minha faculdade, porque nunca me faltou nada, porque ela sempre me encheu com aquelas coisas supérfluas. Como eu poderia ser egoísta e ingrata ao ponto de não emprestar o meu nome para a minha própria mãe que estava com o nome sujo? Como eu poderia não confiar nela? Não sei como passei por aquele momento. Na verdade eu sei sim: eu corria oito quilômetros por dia, e isso estragou o meu joelho. A minha gastrite virou úlcera. Desenvolvi bruxismo, enxaquecas terríveis, bexiga hiperativa e disidrose. Todas essas doenças sintomáticas vieram por conta do estresse. Mas passou. Eu consegui pagar as dívidas, sem a ajuda da minha mãe, inclusive.
A história deveria acabar aqui, certo? Eu saí de casa, brigamos e nunca mais nos falamos. O que ela fez foi imperdoável. Mas eu a perdoei. E de uma forma bem bizarra, eu nem passei pela raiva. Porque sentir ódio pela minha mãe seria mais uma fonte de culpa. Sim. Eu sofro de culpa crônica. E isso é esmagador, limitador e muito angustiante. Eu realmente vivi durante alguns anos nessa fantasia de que eu era um ser humano bastante evoluído e que conseguia separar o problema da minha mãe com dívidas e todas as suas bagunças com nossa relação de mãe e filha. Afinal de contas, ela não fez por mal, não é mesmo? Ela é doente. Ela errou. As pessoas erram. Eu me contei uma porção de histórias. Minha mãe fez uns três ou quatro erros como este ao longo da sua vida, esse não foi o primeiro nem o último. Percebe, esse é o problema de uma mãe narcisista, ela acha que eu sou uma extensão dela, e ela pode me usar como um pino em um tabuleiro. Se apropriando dos meus recursos e não se importando com as consequências negativas advindas dessas ações. Falta empatia, a compulsão por si é tão grande que não existe o outro nessa equação. E ao contrário do que pensa a maioria das pessoas, o narcisista não se ama loucamente, ele tem uma auto estima bem cagada e se auto-vangloria em função disso. E como em qualquer relacionamento abusivo, existe uma co-dependência emocional, a mãe precisa ser vista como um ser bom, perfeito, e se coloca como vítima nessa relação, enquanto a filha se vê com medo do abandono, da rejeição, do conflito e da tão supracitada culpa.
Minhas crises de ansiedade voltaram de maneira generalizada, e com elas uma depressão debilitante. Eu busquei ajuda psiquiátrica e psicológica. A psicoterapia foi fundamental, eu fiz uma autoanálise muito profunda e ainda assim, demorei mais dois anos para perceber que tinha uma relação tóxica com minha mãe. Eu demorei quase três décadas da minha vida para descobrir que alguma coisa estava muito errada. Foi difícil, porque o mais confuso disso tudo é que a minha mãe sempre foi muito carinhosa comigo. Ela sempre foi aquela pessoa carismática e simpática, que as pessoas gostavam muito. Seus ataques eram passivo-agressivos. Era de um jeito delicado que ela dizia que eu tinha engordado, ou que um corte de cabelo tinha ficado muito feio em mim, ou que ela sempre foi a melhor da classe e eu nunca saberia como era isso - eu já reprovei um ano na escola. Era de uma forma bem sutil que ela dava a entender que a saúde do meu pai era de minha responsabilidade, e que se as finanças deles não iam bem - por alguma irresponsabilidade qualquer - eu tinha alguma obrigação de socorrer. Não era de maneira escancarada que ela dava palpites em como eu deveria organizar a minha casa quando ela fazia visitas, ou se eu deveria convidar algum parente para algum evento, ou como eu fiz fulano se sentir mal porque expus minha opinião. Ela tenta me controlar pela culpa de todas as formas e é um exercício diário demarcar limites nessa relação sem que eu saia muito machucada. Inclusive eu estou me sentindo muito culpada de estar escrevendo este texto agora porque hoje tivemos uma conversa razoável por mensagem de texto. Enfim, lembra dos meus diários? Pois é, eu não podia não amá-la, sabe? A culpa me comeria viva por dentro, aquela mesma culpa que eu fugia tanto, ela me comeria órgão a órgão, até não sobrar nada, e esse vazio me transformaria em um ser terrível. Que tipo de sujeito não gosta da própria mãe? Numa sociedade onde a mãe é um ser sagrado, algumas pessoas simplesmente se esquecem de que mães são apenas mulheres que tiveram filhos.
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