Parece que vou ter que enfrentar o luto tudo de novo. Sabe, eu sempre fui viciada em aprovação. Pelo menos na aprovação da minha mãe, que me fazia acreditar que o meu valor estava atrelado necessariamente ao sucesso. Acho que até a visão de sucesso era completamente distorcida. Eu, enquanto pessoa, não valia nada, mas era apenas um meio, uma forma de alcançar algo. Quem eu sou, nunca seria suficiente.
Foi aí que eu comecei a fantasiar. A ir longe, até onde a ambição pudesse chegar. Eu sonhava com coisas impossíveis de se realizar, porque agradar minha mãe parecia algo impossível também. Passei a me sentir um fracasso, o tempo todo. Produto da minha própria sabotagem.
Mudar as narrativas internas, e mudar um discurso que é o eco de uma mãe narcisista bagunça totalmente a sua cabeça. Eu cresci muito tempo sem identidade. Me medindo pelas críticas e descrições elaboradas pela voz de outra pessoa. Fui sempre diminuída, colocada para baixo, e mais e mais baixo, embaixo de tudo. Eu não conseguia me descolar dessa visão deturpada. Desses valores equivocados...
Eu me mantive no modo sobrevivência. Ninguém realmente sabia o que acontecia dentro de casa. Como saberiam o que acontecia dentro de mim? Eu nunca me senti segura, porque quem deveria assegurar a minha segurança me colocava em perigo, num campo de batalha, sempre em conflito. Nunca tranquila. Eu acordava com sustos, gritos. Um ambiente de julgamentos, onde não existiam limites. Sem poder aprender a limitar os ataques, ou como se proteger.
Eu reprimi tudo, porque a imagem era muito importante. Ela dizia que me amava, e sempre me exibiu como um troféu para os outros. Eu achava que isso poderia ser amor. Palavras e aparências.
Mas não era. Eu entendi bem depois.
E tem vezes que eu sou carregada para um lugar tão sombrio e triste. Eu não tenho um passado seguro para visitar sem me machucar. Agora que eu sei da verdade, olhar para trás é perturbador. E por mais que eu tenha me ensinado coisas novas e leves, eu me pego presa nessa voz de ecos narcisista, essa voz que não é minha, mas ressoa feito chicotes na minha auto-estima.
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