Pular para o conteúdo principal

Recaída

Parece que vou ter que enfrentar o luto tudo de novo. Sabe, eu sempre fui viciada em aprovação. Pelo menos na aprovação da minha mãe, que me fazia acreditar que o meu valor estava atrelado necessariamente ao sucesso. Acho que até a visão de sucesso era completamente distorcida. Eu, enquanto pessoa, não valia nada, mas era apenas um meio, uma forma de alcançar algo. Quem eu sou, nunca seria suficiente. 

Foi aí que eu comecei a fantasiar. A ir longe, até onde a ambição pudesse chegar. Eu sonhava com coisas impossíveis de se realizar, porque agradar minha mãe parecia algo impossível também. Passei a me sentir um fracasso, o tempo todo. Produto da minha própria sabotagem.

Mudar as narrativas internas, e mudar um discurso que é o eco de uma mãe narcisista bagunça totalmente a sua cabeça. Eu cresci muito tempo sem identidade. Me medindo pelas críticas e descrições elaboradas pela voz de outra pessoa. Fui sempre diminuída, colocada para baixo, e mais e mais baixo, embaixo de tudo. Eu não conseguia me descolar dessa visão deturpada. Desses valores equivocados... 

Eu me mantive no modo sobrevivência. Ninguém realmente sabia o que acontecia dentro de casa. Como saberiam o que acontecia dentro de mim? Eu nunca me senti segura, porque quem deveria assegurar a minha segurança me colocava em perigo, num campo de batalha, sempre em conflito. Nunca tranquila. Eu acordava com sustos, gritos. Um ambiente de julgamentos, onde não existiam limites. Sem poder aprender a limitar os ataques, ou como se proteger. 

Eu reprimi tudo, porque a imagem era muito importante. Ela dizia que me amava, e sempre me exibiu como um troféu para os outros. Eu achava que isso poderia ser amor. Palavras e aparências. 

Mas não era. Eu entendi bem depois. 

E tem vezes que eu sou carregada para um lugar tão sombrio e triste. Eu não tenho um passado seguro para visitar sem me machucar. Agora que eu sei da verdade, olhar para trás é perturbador. E por mais que eu tenha me ensinado coisas novas e leves, eu me pego presa nessa voz de ecos narcisista, essa voz que não é minha, mas ressoa feito chicotes na minha auto-estima. 


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sobrevivente de mãe narcisista

Eu costumava escrever nos meus diários que eu amava a minha mãe, todo dia. Era como se eu quisesse afirmar para mim mesma que eu a amava. E não só isso, eu dizia coisas do tipo "ela é perfeita", "ela é a melhor mãe do mundo". Eu escrevia isso numa época onde a gente brigava muito, numa época que minha mãe era muito displicente, que minha mãe não era tão presente. Eu era adolescente e eu vivi coisas que talvez eu não tivesse vivido se eu tivesse um ambiente aberto a conversas. Não que ela não dissesse abertamente "filha, você pode conversar comigo". Ela disse isso, muitas vezes, inclusive, mas não é como se a porta estivesse aberta, sabe? Eu não sentia que ela estivesse de fato interessada na minha vida. No entanto, ela estava sempre interessada na sua própria vida, eu lembro que eu fiz teatro porque o sonho da minha mãe era ter feito teatro, mas a mãe dela falava que teatro era coisa de puta. E lá se foi, eu fiz teatro. Eu gostava do teatro. Eu gostava mui...

Medo de falhar

Você já teve um medo de falhar que parece ser até maior que o seu sonho? É quase um paradoxo… Falhar te faria tão mal que você parece se contentar com o mais fácil, com o que você conseguiu fazer até agora desviando das suas reais vontades. Porque no fundo, talvez você nem seja bom o bastante…  E você vai ganhando idade, e se estabelecendo no plano B que se tornou um plano A. Fica mais difícil quando você se lembra que um dia acreditou que era, ou se tornaria, especial. Que você nasceu para fazer algo grande, daquele jeitinho que você idealizou. Algo que te trouxesse admiração, e se acomodasse na sua vaidade. Até que você esbarra com alguém mais novo que arriscou e tem tudo o que você quis ter. Alguém que não teve medo de se decepcionar, e o pior, nem falhou. Você tenta se agarrar à ideia de que tem um tipo de liberdade por ser uma pessoa qualquer, uma sentimento que você tenta barganhar com seus pensamentos de “pelo menos isso, pelo menos aquilo”, mas no fundo o que você sente é u...